quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Ano novo

Este é o novo ano
não me sinto nele
me sinto ainda no ano velho
não sou deste ano
ele começou errado
nem parece ano
parece mês
começou sem chuva
começou estranho
a pizza estava ruim
parece mais fácil a raiva
do que a felicidade
um sorriso, que anceia por liberdade
neste ano, desejo que todos os desejos de anos anteriores se realizem
meu coração se entrelaça em caminhos com a dor
e o calor
minhas narinas entupidas me fazem agonizar
o que escorre delas parecem machucar
mas o novo ano que não é novo
não me trouxe um coração novo
nem uma mente nova
são as mesmas lembranças
embrulhadas com outras embalagens
não há o que esperar de estranho e esplêndido
mas as melhores coisas são apreciadas na ausência de expectativas
os verões que não me aqueceram
as chuvas que não me molharam
não me esfriaram
o vento que não me foi soprado
o roupa que não me fora comprada
talvez este ano
eu, velho
me sinto comum neste ano, novo-velho
mas ele me trouxe uma sensação
de profundidade
a intensidade de um oceano
com todos os seus mistérios
claro em superfície
vai escurecendo
se tornando perigoso
arriscado
com o calor do sol
o brilho da lua
eu vou viajando
no meu barco
tão frágil, instável
quem sabe na dor da partida
no soluço agonizante do mergulho
um submarino venha me socorrer
um ano cheio de surpresas
não espero nada, de tudo
a perspectiva que tenho
é de estar sem expectativas
espero ter prazeres inesperados
nos impulsos nervosos
no tempo que não foi
carrego comigo uma mala
uma enorme mala
onde caberá muitas alegrias.

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