sexta-feira, 8 de abril de 2016

Nada de nadas

Tudo que eu mais quero é uma companhia agradável
às vezes cansa ser sozinho, rodeado de pessoas
pessoas que se consideram donas de si
sem a mínima independência
sem o livro a escrever
sem nada a fazer
fazer alguma coisa é o que ninguém quer
todos adoram o nada
vivemos no planeta do nada
onde nada é bom
nada é legal
nada
só dá para ter nadas?
pois desejo um nada cheio
cheio
um nada que seja cheio de um modo peculiar
de um modo de vida arrebatador
de viver no nada
e transbordar tudo que for feito
de nada
afinal

quinta-feira, 31 de março de 2016

Dezembro

Estamos em abril
eu queria que fosse janeiro
ainda queria que fosse confraternização universal
o dia de sua visita
e o dia de sua despedida
o dia do adeus logo depois do olá
agora só nos veremos em dezembro
por quê você mora tão longe
por quê ainda se esconde?
por quê estaremos sempre um passo atrás de conseguirmos ser?
o que queremos
o que nos enche de ânsia
é o dezembro
dias de dezembro
e se dezembro não chegar (sei que chegará)
estarei esperando mesmo assim
venha
eu vou
ninguém viaja
ninguém viajou
e o dezembro acabou
janeiro começou
e outros estão aguardando dezembro
numa situação tão repetida
enfadonha
engraçada
de morte
qualquer um morre de esperar.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Passagem

A melhor forma de não sentir o tempo
é não se importando com ele
querer que ele passe
ou não passe
é o esquecimento que tornará tudo tranquilo
não o note
não olhe o relógio
o calendário
o noticiário
se empolgue com o que está fazendo sempre
e faça um engano psicológico
de que tudo está bem
e o mundo dirá
uma hora ele dirá
para quê você veio.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Torta

Não sinto o meu coração
Quem sente o que você quer sentir
tem de olhar para a vida com outros olhos
com outros ouvidos deve ouvir a sinfonia de nona escala
quem está perguntando o quê você sente
realmente se importa?
Talvez tudo se resolvesse com uma torta
com um café
diálogo nunca foi um forte da natureza humana
é um forte da tolerância
um forte das circunstâncias inabaláveis quando boas
e suscetíveis à mudanças quando ruins
é um esticar de pernas
em espinhos de verdade.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Absoluto

A intolerância é a mãe de todos os males. Parte dela e de intrínseca involuntariedade de natureza humana, a arrogância de não aceitar o outro, as diferenças sociais, econômicas, políticas, estilísticas, de descrenças e crenças ( o ateísmo forte defina sua corrente filosófica como crença na ausência de uma deidade). Se tocássemos nossa alma ou ao menos a superfície dela, nossa verdadeira essência, nossos reais desejos e ambições, insatisfações pessoais mantidas e cobertas como poeira debaixo do tapete, haveria uma averiguação e suavização dos conflitos humanísticos, gastaríamos mais tempo nos preocupando com nós do que com o outro e, dentro de nós, encontraríamos também o ''outro'' e o inesperado aconteceria, pois qualquer um tem parte do ''outro'' em si, querendo ou não, todos vivem em uma sociedade e, não sobreviveríamos sem ela. Ame seu próximo, ame os distantes, ame as pessoas, e verás que elas ao contrario do que tu achastes - tu, um pobre amante da misantropia - pessoas podem ser as melhores coisas do mundo e deveriam ser, sensações insubstituíveis que cachorros substituem, a vida é repleta de antíteses, e deve prevalecer o bom de qualquer uma, assim como os paradoxos, seja tolerante e não insulte a si, envergonhando a raça humana ainda mais. Evite o absoluto.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Horas

Estou cansado
e não sei até onde ir
onde desistir
e onde recuar
onde não parar
onde persistir
não quero ficar em casa
e estou entediado como um relógio
que responsabilidade?
que responsabilidade!

terça-feira, 10 de novembro de 2015

As partes de cada cômodo

À noite, sozinho no quarto ou qualquer outro cômodo da casa
o silêncio assusta
sou eu em si
sem o outro para desviar o caminho retilíneo que leva a compreensão do ''eu sou''
tudo é mais assustador
até o silêncio parece chorar e se debruçar num porre de quatro dias
as paredes imploram por mais vida, sofrem como alguém que está a não amar
o teto suplica para desabar e terminar com sua persistência involuntária
e o chão vai me engolindo
pouco a pouco
até me sobrar somente uma mão para escrever.